
Se fizermos uma retrospectiva sobre Grupos, veremos no contexto histórico várias vertentes que explicam o porquê dos processos grupais e a importância deles nas mais diversas esferas da sociedade. Cabe destacar, nos primórdios das civilizações, o grupo como precursor das relações sociais, o que a posteriori foi denominado sociedade. Inicialmente, nas “sociedades primitivas”, os grupos eram denominados clãs, que unidos formulavam estratégias de caça, luta e meios de sobrevivência. É nos grupos que é iniciado todo um processo de humanização do sujeito, onde competências são estimuladas e onde há a fundamentação da moralidade e da ética.
Foi na Grécia Antiga, através de Sócrates que se iniciou uma doutrina baseada no autoconhecimento, ao contrário dos naturalistas, que tinham como principais indagações o estudo da natureza, Sócrates propiciou uma dialética voltada para a “pólis” onde grupos reuniam-se para dialogar e refutar imposições do Estado inserindo uma postura moral. Posteriormente, Platão e Aristóteles deram continuidade à esta filosofia.
A expansão dos grupos depende de diversos fatores que se interligam e fazem parte da evolução biológica da espécie humana e da progressão econômica, histórica, política e social da humanidade.
Assim, de acordo com Maturana (1998), um dos fatores básicos para a evolução da espécie humana foi a linguagem, pois ela favoreceu o desenvolvimento das relações intra e inter espécies, porque ao unir indivíduos da mesma espécie a linguagem pôde auxiliar na constituição das relações macro-sociais, gerando assim a abertura para a troca de alianças entre grupos, o que possibilitou encontros mais constantes e conseqüentemente relações mais cooperativas, iniciando assim o que hoje chamamos de sistema social. Outro fator importante a destacar é o apego e vínculo, explicitado por Bolwby. Pois estes atuam como uma fonte de socialização do ser humano, sendo fundamentais nas relações de proximidade, colaboração e respeito, que são imprescindíveis para o bem estar nas relações grupais.
O educador Jorge Larrosa Bondía, em sua discussão Notas sobre a experiência e o saber da experiência, relata a importância desta vivencia no despertar do conhecimento, e para ele a experiência é toda a relação que nos toca, nos passa- colocando-nos despertos a contemplar tal realidade, pois é ela, a experiência, capaz de despertar um saber diferente de informação. As experiências nos ensinam a refletir, a comparar e acrescentar muito mais que informação. Assim, o conceito de experiência de Larrosa se interliga com outras visões grupais. Grupo, segundo Regina Benevides de Barros, em seu livro Grupo: a afirmação de um simulacro ressalta o conceito pós renascimento, como sendo estruturador de intercâmbios e isso remonta ao conceito de experiência de Larrosa, pois ao pensarmos em grupo como uma rede de intercambio, de trocas, de interações atribui-se também uma rede de experiências, as quais têm o poder de transformar e constituir saber.
Paulo Freire e Ira Shor (1986) expõem o diálogo como a chave do aprender, assim, segundo eles, é o diálogo quem sela o ato de aprender, que nunca é indivual, pois o “diálogo com o outro é fundamental para sistematizar saber e assim apreender a aprender.” Desta forma, assim como Platão propôs diálogos como libertadores do pensamento, o grupo interage através do diálogo e é através dele que há o compartilhamento de idéias, discussões, apontamentos, esclarecimentos, enfim, um constante movimento de idéias que se moldam e se justificam na experiência de si para com o outro, sendo essa vivencia fundamental em diferentes contextos sociais. Segundo Frydlewsky e Pavlovsky o discurso do indivíduo no grupo é diferente do seu discurso fora deste, o individuo expõem-se ao grupo de modo diferenciado e essa variação implica na identidade grupal. Essa configuração presente nos grupos está de certo modo interligada com processos de Transferência e contratransferência, fenômenos estes que estão sempre relacionados com vivencias passadas, que remontam sentimentos e são vividos no presente. Conforme Bion (Zarpelon et. al), a transferência é uma experiência transitória, é um sentimento, pensamento ou idéia que o paciente tem, em seu caminho para um outro lugar. A transferência é fundamental no processo grupal, pois ela possui o poder de estabelecer vínculos e laços, que possibilitam a ligação entre os membros do grupo. É também importante destacar o papel da resistência, pois é ela que entrava o acesso do sujeito à sua determinação inconsciente, modificando e interferindo negativamente no grupo. Conforme citado no trabalho de Zarpelon et. al, “as resistências são os “nós”dos processos grupais, e desatar esses nós possibilita a elaboração de transferência e crescimento grupal.”
Ao remontarmos a história das civilizações, podemos ver os grupos presentes e atuantes em todas as épocas, e a partir deles que revoluções, mudanças, e também conflitos foram gerados. Os grupos possuem peculiaridades próprias e ao escolher um grupo o individuo considera seus interesses e necessidades, portanto são os grupos que denotam as características do conjunto de indivíduos que dele participam. Logo, conforme Lancetti (1994), em Torres et al (2003) , os membros de um grupo, juntam-se por possuírem psiquicamente elementos que encontram nesse habitat grupal e através de redes transferenciais um continente que possibilite sua expressão e conseqüente elaboração, portanto, partindo dessa premissa, um grupo nada mais é que linguagem em massa, onde está impressa todas as expressões, emoções e desejos desses indivíduos.
Do ponto de vista sociológico, os grupos podem ser divididos em; compostos (possui subgrupos), consangüíneos (clã, linhagem, família), de idade (geração), de pressão (sindicatos), exclusivos (excludentes), funcionais (esportes, etc), genéticos (taxa de natalidade), horizontais (mesma classe social), inclusivos (associações de moradores), intermitentes (grupos terapêuticos), locais (o mesmo que vicinal), marginais(minoria) minoritários (o mesmo que marginal), primários (família), secundários (partidos políticos, sindicatos, empresas), sociais (solidariedade social), verticais (igrejas, seitas, partidos políticos), e vicinais (vizinhança, residem no mesmo local). Atualmente, há muitos grupos na sociedade, os quais também são denominados tribos e envolvem uma grande variedade de estilos. Cada grupo possui a sua própria identidade, que se apresenta sob a face dos membros e dos interesses destes e também um coordenador, que atua como um divisor de águas, um protetor. O coordenador não é necessariamente o líder, este pode ser qualquer membro do grupo ou o próprio coordenador, é o líder quem representa papel emergente das necessidades grupais. Partindo de uma revisão histórica, alguns exemplos de líderes que se pode citar são: Jesus Cristo (líder espiritual), Maomé (líder espiritual) Che Guevara (líder revolucionário), Mao Tse-Tung (líder comunista Chinês), Napoleão Bonaparte (líder estrategista militar), Abraham Lincoln (líder abolicionista americano e presidente), Simon Bolívar (líder libertário da América Latina), Martin Luther King (líder abolicionista), Mahatma Gandhi (líder da resistência pacifica na India), Nelson Mandela (líder anti aparthaid), Madre Tereza de Calcuta (líder das causas sociais), Zilda Arns (líder pró- infância melhor), Dalai Lama (líder espiritual budista), Eva Peron (líder causas sociais), Papa João Paulo II (líder religioso), Adolf Hitler (líder nazista), Benito Mussolini (líder fascista), General Francisco Franco(líder fascista Espanhol) entre outros.
Enfim, são os distintos grupos que constituem a sociedade, e cada individuo tem a possibilidade de unir-se a mais de um grupo, inserindo-se assim num processo de vinculação de interesses e necessidades, onde com outros indivíduos partilham seus anseios e carências, os quais constroem através da linguagem grupal um referencial social. Convém ressaltar que nem todos os grupos são referências positivas para a sociedade, entretanto, eles são um espelho das faltas e divergências de tal período, mostrando assim a real situação em voga. Portanto, os grupos são a impressão mais contundente da sociedade, onde os membros não apenas compartilham seus interesses e desejos, mas também demonstram sua revolta e desespero perante urgências políticas e sociais.
ReferenciasBARROS, Regina Benevides de. Grupo: a afirmação de um simulacro. 1º edição. Porto Alegre: Sulina, 2007.
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Universidade de Barcelona- Espanha. Revista Brasileira de Educação. nº19. 2002.
DICIONÁRIO DE SOCIOLOGIA. 1º edição. Globo: Porto Alegre, 1961.
FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. O sonho do professor sobre a educação libertadora. In: Medo e ousadia: o cotidiano do professor, 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
FRYDLEWSKY, Luis; PAVLOVSKY, Eduardo. Sobre dos formas de comprender Del cordinador grupal.
MATURANA, H. Da Biologia à Psicologia. Trad. Juan Acuña. 3ºedição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
TORRES, Faridi Lúcia A. et al. O manejo do coordenador na transferência e contratransferência em grupos de desenvolvimento. Sociedade Brasileira de Dinamica de Grupos. Trabalho de conclusão de curso. Curitiba. Julho,2003.
ZARPELON, Claudia. et al. Transferencia e contratransferência no processo grupal. Cadernos da Sociedade Brasileira de Dinamica de Grupos.
Débora Becker- Abril/2010