quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carol, Carol..Carolina bela!


Arabela
abria a janela.
Carolina
erguia a cortina.
E Maria
olhava e sorria:
“Bom dia!”
Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina;
a mais sábia menina.
E Maria
apenas sorria:
“Bom dia!”
(Cecília Meireles- As meninas)

domingo, 17 de outubro de 2010

A Bailarina, de Cecília Meireles


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

sábado, 21 de agosto de 2010

Um amor nas alturas...

Uma bicada aqui, outra lá..
Assim os tucanos parecem namorar
Todo dia, no mesmo local,
Faceiro pousa o esbelto casal..
Emitem sons que não sei explicar,
será um cantico de amor a pairar?!
Beijinhos e afagos trocam no ar,
É,devem gostar da aventura de amar!

sábado, 14 de agosto de 2010

Grupos na contemporaneidade: uma revisão social e histórica.


Se fizermos uma retrospectiva sobre Grupos, veremos no contexto histórico várias vertentes que explicam o porquê dos processos grupais e a importância deles nas mais diversas esferas da sociedade. Cabe destacar, nos primórdios das civilizações, o grupo como precursor das relações sociais, o que a posteriori foi denominado sociedade. Inicialmente, nas “sociedades primitivas”, os grupos eram denominados clãs, que unidos formulavam estratégias de caça, luta e meios de sobrevivência. É nos grupos que é iniciado todo um processo de humanização do sujeito, onde competências são estimuladas e onde há a fundamentação da moralidade e da ética.
Foi na Grécia Antiga, através de Sócrates que se iniciou uma doutrina baseada no autoconhecimento, ao contrário dos naturalistas, que tinham como principais indagações o estudo da natureza, Sócrates propiciou uma dialética voltada para a “pólis” onde grupos reuniam-se para dialogar e refutar imposições do Estado inserindo uma postura moral. Posteriormente, Platão e Aristóteles deram continuidade à esta filosofia.
A expansão dos grupos depende de diversos fatores que se interligam e fazem parte da evolução biológica da espécie humana e da progressão econômica, histórica, política e social da humanidade.
Assim, de acordo com Maturana (1998), um dos fatores básicos para a evolução da espécie humana foi a linguagem, pois ela favoreceu o desenvolvimento das relações intra e inter espécies, porque ao unir indivíduos da mesma espécie a linguagem pôde auxiliar na constituição das relações macro-sociais, gerando assim a abertura para a troca de alianças entre grupos, o que possibilitou encontros mais constantes e conseqüentemente relações mais cooperativas, iniciando assim o que hoje chamamos de sistema social. Outro fator importante a destacar é o apego e vínculo, explicitado por Bolwby. Pois estes atuam como uma fonte de socialização do ser humano, sendo fundamentais nas relações de proximidade, colaboração e respeito, que são imprescindíveis para o bem estar nas relações grupais.
O educador Jorge Larrosa Bondía, em sua discussão Notas sobre a experiência e o saber da experiência, relata a importância desta vivencia no despertar do conhecimento, e para ele a experiência é toda a relação que nos toca, nos passa- colocando-nos despertos a contemplar tal realidade, pois é ela, a experiência, capaz de despertar um saber diferente de informação. As experiências nos ensinam a refletir, a comparar e acrescentar muito mais que informação. Assim, o conceito de experiência de Larrosa se interliga com outras visões grupais. Grupo, segundo Regina Benevides de Barros, em seu livro Grupo: a afirmação de um simulacro ressalta o conceito pós renascimento, como sendo estruturador de intercâmbios e isso remonta ao conceito de experiência de Larrosa, pois ao pensarmos em grupo como uma rede de intercambio, de trocas, de interações atribui-se também uma rede de experiências, as quais têm o poder de transformar e constituir saber.
Paulo Freire e Ira Shor (1986) expõem o diálogo como a chave do aprender, assim, segundo eles, é o diálogo quem sela o ato de aprender, que nunca é indivual, pois o “diálogo com o outro é fundamental para sistematizar saber e assim apreender a aprender.” Desta forma, assim como Platão propôs diálogos como libertadores do pensamento, o grupo interage através do diálogo e é através dele que há o compartilhamento de idéias, discussões, apontamentos, esclarecimentos, enfim, um constante movimento de idéias que se moldam e se justificam na experiência de si para com o outro, sendo essa vivencia fundamental em diferentes contextos sociais. Segundo Frydlewsky e Pavlovsky o discurso do indivíduo no grupo é diferente do seu discurso fora deste, o individuo expõem-se ao grupo de modo diferenciado e essa variação implica na identidade grupal. Essa configuração presente nos grupos está de certo modo interligada com processos de Transferência e contratransferência, fenômenos estes que estão sempre relacionados com vivencias passadas, que remontam sentimentos e são vividos no presente. Conforme Bion (Zarpelon et. al), a transferência é uma experiência transitória, é um sentimento, pensamento ou idéia que o paciente tem, em seu caminho para um outro lugar. A transferência é fundamental no processo grupal, pois ela possui o poder de estabelecer vínculos e laços, que possibilitam a ligação entre os membros do grupo. É também importante destacar o papel da resistência, pois é ela que entrava o acesso do sujeito à sua determinação inconsciente, modificando e interferindo negativamente no grupo. Conforme citado no trabalho de Zarpelon et. al, “as resistências são os “nós”dos processos grupais, e desatar esses nós possibilita a elaboração de transferência e crescimento grupal.”
Ao remontarmos a história das civilizações, podemos ver os grupos presentes e atuantes em todas as épocas, e a partir deles que revoluções, mudanças, e também conflitos foram gerados. Os grupos possuem peculiaridades próprias e ao escolher um grupo o individuo considera seus interesses e necessidades, portanto são os grupos que denotam as características do conjunto de indivíduos que dele participam. Logo, conforme Lancetti (1994), em Torres et al (2003) , os membros de um grupo, juntam-se por possuírem psiquicamente elementos que encontram nesse habitat grupal e através de redes transferenciais um continente que possibilite sua expressão e conseqüente elaboração, portanto, partindo dessa premissa, um grupo nada mais é que linguagem em massa, onde está impressa todas as expressões, emoções e desejos desses indivíduos.
Do ponto de vista sociológico, os grupos podem ser divididos em; compostos (possui subgrupos), consangüíneos (clã, linhagem, família), de idade (geração), de pressão (sindicatos), exclusivos (excludentes), funcionais (esportes, etc), genéticos (taxa de natalidade), horizontais (mesma classe social), inclusivos (associações de moradores), intermitentes (grupos terapêuticos), locais (o mesmo que vicinal), marginais(minoria) minoritários (o mesmo que marginal), primários (família), secundários (partidos políticos, sindicatos, empresas), sociais (solidariedade social), verticais (igrejas, seitas, partidos políticos), e vicinais (vizinhança, residem no mesmo local). Atualmente, há muitos grupos na sociedade, os quais também são denominados tribos e envolvem uma grande variedade de estilos. Cada grupo possui a sua própria identidade, que se apresenta sob a face dos membros e dos interesses destes e também um coordenador, que atua como um divisor de águas, um protetor. O coordenador não é necessariamente o líder, este pode ser qualquer membro do grupo ou o próprio coordenador, é o líder quem representa papel emergente das necessidades grupais. Partindo de uma revisão histórica, alguns exemplos de líderes que se pode citar são: Jesus Cristo (líder espiritual), Maomé (líder espiritual) Che Guevara (líder revolucionário), Mao Tse-Tung (líder comunista Chinês), Napoleão Bonaparte (líder estrategista militar), Abraham Lincoln (líder abolicionista americano e presidente), Simon Bolívar (líder libertário da América Latina), Martin Luther King (líder abolicionista), Mahatma Gandhi (líder da resistência pacifica na India), Nelson Mandela (líder anti aparthaid), Madre Tereza de Calcuta (líder das causas sociais), Zilda Arns (líder pró- infância melhor), Dalai Lama (líder espiritual budista), Eva Peron (líder causas sociais), Papa João Paulo II (líder religioso), Adolf Hitler (líder nazista), Benito Mussolini (líder fascista), General Francisco Franco(líder fascista Espanhol) entre outros.
Enfim, são os distintos grupos que constituem a sociedade, e cada individuo tem a possibilidade de unir-se a mais de um grupo, inserindo-se assim num processo de vinculação de interesses e necessidades, onde com outros indivíduos partilham seus anseios e carências, os quais constroem através da linguagem grupal um referencial social. Convém ressaltar que nem todos os grupos são referências positivas para a sociedade, entretanto, eles são um espelho das faltas e divergências de tal período, mostrando assim a real situação em voga. Portanto, os grupos são a impressão mais contundente da sociedade, onde os membros não apenas compartilham seus interesses e desejos, mas também demonstram sua revolta e desespero perante urgências políticas e sociais.

Referencias

BARROS, Regina Benevides de. Grupo: a afirmação de um simulacro. 1º edição. Porto Alegre: Sulina, 2007.
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Universidade de Barcelona- Espanha. Revista Brasileira de Educação. nº19. 2002.
DICIONÁRIO DE SOCIOLOGIA. 1º edição. Globo: Porto Alegre, 1961.
FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. O sonho do professor sobre a educação libertadora. In: Medo e ousadia: o cotidiano do professor, 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
FRYDLEWSKY, Luis; PAVLOVSKY, Eduardo. Sobre dos formas de comprender Del cordinador grupal.
MATURANA, H. Da Biologia à Psicologia. Trad. Juan Acuña. 3ºedição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
TORRES, Faridi Lúcia A. et al. O manejo do coordenador na transferência e contratransferência em grupos de desenvolvimento. Sociedade Brasileira de Dinamica de Grupos. Trabalho de conclusão de curso. Curitiba. Julho,2003.
ZARPELON, Claudia. et al. Transferencia e contratransferência no processo grupal. Cadernos da Sociedade Brasileira de Dinamica de Grupos.

Débora Becker- Abril/2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"Geração 2312"...


Quatro cantos, oito arestas
Um quadrado, pura festa!

Quadro negro, papelzinho..
Um colando do vizinho!

Muitas vozes, muitas caras,
várias cores...
Professores, amigos, amores!

Na hora da decisão,
é muita descontração..
Discordancia vira manifestação!

O pior é quando chega o exame de
recuperação..
aperta até o coração,
eis aí o TERCEIRÃO!!!

Débora Becker (2005)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A dama do Inverno...


Não sei porque esta paixão, tantos reclamam desses dias frios, gelados, pálidos.
Por trás desse mistério, vejo o que em outras estações não enxergo e aguardo curiosa a aparição da neve. O frio aqui do Rio Grande é um espetáculo, o gelo transforma-se em obra de arte ao amanhecer no campo.Na serra e na campanha, as chaminés expulsam fumaça, tem fogo na brasa e pinhão na chapa.
Esse gosto do frio vem de criança, pois a neve tornou-se lembrança e para reviver o espírito da infância fico atenta ao nebuloso céu, aguardando ,quem sabe, algum pedacinho, mesmo que seja uns poucos floquinhos daquela paisagem que naquele instante não pôde ficar...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

22


Não importa quanto,
o que vale é o espaço entre cada ponto
a distancia entre o antes e o agora
Ora bolas!
é preciso esquecer que existe hora
para ir embora...
o tempo não tem relógio
para cronometrar os exatos segundos
que viraram anos...
porque os constantes instantes de ontem,
são os ponteiros da minha hora
agora!

Fotografia: Evídio Becker.
(Eu e minha amada priminha Carolina)

sábado, 29 de maio de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Plié



Um passo, um desafio...
Um salto, um arrepio...
Assim a vida passa por um fio.
Um fio de ouro que envolve as pernas
da moça de coque e saiote.
Ah! A bailarina se move, se arrisca
Ela dança em qualquer vão que resista
Permanece sempre na risca, no palco , sob sua vista
Dentro do teatro da vida,
da bailarina artista!

Débora Becker

quarta-feira, 10 de março de 2010

O coro de São Chico

O vento que sopra de leve, os raios de sol que se vão... A escuridão se aproxima e a mata ganha vida. A noite parece misteriosa, entretanto nada silenciosa, a sinfonia dos pássaros e sapos afagam nossos ouvidos e nos convidam para conhecer o que de mais belo está escondido.

Débora Becker

RETRO-EXPECTATIVA



Sou suspeita ao falar do verão, mas como todo o gaúcho que se preze também tenho orgulho do soprar do minuano nos dias de inverno e da geada que branqueia os campos da serra e da campanha: o frio é uma dádiva nossa! Calor, só mesmo na beira do mar, ou então esticado na rede debaixo de uma frondosa árvore nesses dias escaldantes. A praia é o nosso refúgio, e convenhamos, até colocar o “lombinho” no sol parece gostoso, banhar-se nas águas, nem sempre tão cristalinas, além de terapêutico, é uma delícia! Gosto mesmo é da liberdade que o nosso litoral traz - pode-se andar de chinelos e biquíni e se está pronto pra frequentar qualquer lugar. Sem contar que na praia sentimo-nos confortáveis, despreocupados e até celulite vira charme! Os cabelos ganham rebeldia, não há xampu que resolva, mas isso é uma beleza; a naturalidade passeando pela praia, o corpinho ganhando cor de camarão, as barrigas “aspiradas” desfilando pelas areias, castelinhos, crianças posando com o pônei, vovôs e vovós exibindo sua indescritível felicidade: se vê de tudo! O almoço das três horas da tarde, a casa superlotada, o passeio de “dindinho”, a invasão das lagartixas, a dieta da engorda, as caminhadas tão longas que assam as coxas gordas e fazem doer a “sola” do pé... Ah! Esses dias no mar são tão proveitosos e divertidos, até a chuva torna-se um presente - as poças pelas ruas um labirinto, os supermercados uma vitrine da gulodice, os camelôs um passatempo, a feira da colônia o dia de comprar milho e mini-abacaxis. Enfim, é uma maravilha procurar conchinhas e bolachas do mar, pescar, pegar onda, fugir das águas vivas, lutar contra o vento ao colocar o guarda sol e ficar esperando a buzina do sorveteiro soar a quilômetros para poder contar o “din-din” e tomar aquele sorvete...
Tristeza mesmo, só quando chega o último dia, no qual se pensa: já?! Passou tão rápido, nem deu tempo de fazer tudo, aqui é tão bom... Apesar de sentirmos falta das muitas coisas que deixamos para trás, a vontade de ficar é tremenda, ao menos pra mim, que sou praieira mesmo. Mas embora eu seja metade peixe, metade “Maria Farinha” fica o desejo de reencontrar os amigos, retomar os livros, encarar mudanças, cumprir horários, organizar a bagunça, enfim, confrontar-se com o cotidiano. Assim, ao voltar de férias é preciso deixar a “canga” de lado, aproveitar o ano que então inicia e inclusive, permanecer recordando o tempo de praia que findou no desejo de chegar o próximo verão para poder repetir as peripécias de sempre.

Débora Becker- março/2010

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

De modo studendi - São Tomas de Aquino

Para São Tomás de Aquino tudo aquilo que pode ser compreendido e assimilado pela razão contribui no desenvolvimento do ser humano, e baseado em Aristóteles, diz ser a experiência sensorial o fator determinante para constituir o conhecimento racional. Logo, tudo aquilo que é experimentado pelos sentidos constitui um saber. Tomás, em De modo studendi refere-se à busca do conhecimento como uma tarefa continua, descompassada e persistente – onde o tempo é o bonus cooperator. É preciso enfrentar o tempo, adquirindo experiências, erros, mistérios para então deparar-se com a sabedoria.
De modo studendi reflete uma pedagogia associada à essência humana, o saber integrado à existência, refletindo sobre como deve ser a vida e de qual modo esta deve ser conduzida para se desfrutar ao máximo a condição reflexiva e inteligível do ser humano. Para ele, a sabedoria não é apenas o conhecimento adquirido a partir do estudo, da dedicação aos livros, mas sim uma experiência constante de saberes. E sapere não apenas como saber, mas como saborear. É preciso saborear, deliciar, provar o saber, e não apenas assimilá-lo, incorporá-lo, instituí-lo. Os saberes provem do saborear, e este saborear é dado pelos sentidos. Tomas de Aquino também destaca a vida contemplativa, dedicada à oração, amabilidade, humildade, devoção como fator primordial para encontrar o conhecimento, pois é a introspecção, o encontro espiritual com a realidade que nos direciona ao saber. Assim, cabe destacar que aquele que se dedica aos estudos, deve primeiramente cuidar de sua alma, refletindo sobre a essência de suas atitudes.
De modo studendi implica no modo de estudar, conhecer e studium em latim, tem uma conotação muito mais ampla do que aquela que conhecemos e incorporamos. Significa a atitude de doar-se à algo por amor, com amor, ou seja, é uma afeição, uma entrega amorosa a algo que toca o coração e que instiga o ser humano a conhecer. Logo, estudar transcende a idéia de ler, refletir, dialogar, sentir, e sim de dedicar-se, doar tempo, investir, investigar, e o objeto de estudo deve ser aquilo que nos move, nos toca, nos passa. O que importa, é o ser enquanto humano e não enquanto máquina. O que vemos hoje são demonstrações e cópias das paixões e não ela, como tal. Forma-se profissionais aptos a lidar com situações difíceis, números, abstrações e muitas vezes se esquece de educar a si próprio, buscando no caráter de cada ser a força motriz do estudo, e sobretudo da arte de apaixona-se. Digo estudo com um sabor intorpecente, que apaixone, motive e que, acima de tudo,direcione o homem para o seu interior, encontrando dentro de si um caminho para trilhar através do conhecimento.

Débora Becker - Outubro/2008

O BANQUETE- resenha e crítica

O banquete é um diálogo de Platão que enfatiza os discursos sobre o amor; o amor em sua totalidade e em sua individualidade, o amor do corpo, o amor da alma, o amor do povo, o amor do indivíduo. Enfim, é um diálogo que pertence a 4º tetralogia de Platão, que tem como introdução a natureza da alma, e sendo a força motriz, Eros, o deus do Amor. O discurso tem como personagens Pausânias, Apolodoro, Aristófanes, Aristodemo, Sócrates, Eriximaco, Fedro, entre outros e Agatão, o anfitrião do banquete. Sócrates é o personagem principal, o sábio do banquete, com quem Agatão e os demais querem desfrutar das sábias idéias que permeiam o seu vasto imaginário.
O banquete é nada mais que uma reunião de pensadores-amigos que após jantar e beber conduzem o seu intelecto às peculiaridades e dicotomias que envolvem o amor. Antes de falar nele, no amor, os participantes do banquete decidem não se embriagar, mas sim beber a seu bel-prazer, sabendo, cada um, qual a medida ideal para o seu corpo e, indubitavelmente para a sua alma. A bebida, assim como as impurezas da alma, impossibilita o homem a transcender em pensamento na verdade, e, sobretudo com sabedoria, sendo ela um terrível mal para os homens. Inicia-se a hora mais esperada do banquete, o momento em que a conversa ganha forma e espírito, é Fédro quem denomina o amor como o tema engendrador daquela noite e é a partir de seu raciocínio que se inicia uma problemática encaminhadora dos mistérios e vicissitudes do Amor. Cada membro do banquete tem uma diversificada e única noção sobre o que ele é, a quem ele pertence e como ele age. O amor é para alguns um deus, e sendo deus, a origem de todas as coisas e também é ele, o condutor da vida de todos aqueles homens que estão prontos a vivê-la em torno da virtude que é fruto desse amor. Ao conduzirem seus estudos sobre o amor numa perspectiva filosófica deparam-se com a dicotomia feio x belo, ou seja, à vergonha do que é feio e ao apreço do que é o belo,sendo o amor a essência do que é belo, e a beleza a essência do amor. E o que faz a beleza do amor é o modo de como esse amor é conduzido pelo amante, sendo que existe aquele que é belo e o que é feio, sendo que o primeiro é o amor nobre, o amor cultivado e que funde-se à alma, já o outro é o amor da carne, o culto ao corpo, às aparências, o amor repentino, instantâneo e popular, sem respeito a essência que habita profundamente tal carcaça. Tal dicotomia traduz o amor como bilateral, mas o verdadeiro e imanente ao tempo é o amor belo, sendo o belo não só comprometedor da beleza em si, mas da sua correlação moral e sensata. O feio seria não aquele deficiente da beleza, e sim aquele vulgar, dotado de interesses que destroem o caráter de um corpo essencialmente belo.
O Amor nasceu de um “amor”, filho de Recurso e Pobreza ele tem a carência e a insensatez da mãe e a esperteza e sabedoria do pai. O amor é dicotômico em função de seus genitores, ele tem a herança do feio e do belo, ele é pobre e ao mesmo tempo nobre, insatisfeito e também dotado de recursos, e por possuir um caráter dualístico deseja aquilo que lhe carece, querendo por isso possuir o que na verdade não está em seu poder. Se, portanto, o amor é carente do que é belo, e também do que é feio seria ele carente do bom e do ruim, pois o belo é bom e conseqüentemente o feio é ruim, porém é preciso encontrar um equilíbrio entre o belo e o feio, entre o bom e o mau. Sendo assim, caso o Amor não seja visto apenas na sua beleza não significa que tenha de ser feio e, portanto mau, ele pode ser aquilo que habita os dois extremos. Na realidade, o que ocorre é um constante casamento do Amor com outros amores e desamores, bondades e também maldades, e o amor e seus parceiros estão por toda a parte, em toda a natureza. Não é sempre que o amor encontra um bom companheiro para eternizar laços. E é nessas uniões infelizes com a violência, a ganância, a inveja, o poder que resultam em brigas repletas de fúria, ainda bem que muitas vezes ele encontra namorados bonzinhos como a amizade, a humildade, a prudência, a justiça, e assim acaba contorcendo a situação, trocando o caos pela harmonia.
O Amor é amor de algo e quando tem amor a algo não deseja, pois já possui, logo, o amor surge do nada. O desejo de amar surge do não ter o que amar? Parece que sim, embora os homens possam amar algo que ao mesmo tempo é nada, pois algo só é algo após possuir e o não possuir é o não ter, que implica em nada (seria o encantamento, o processo pré-amor, o apaixonar-se). É amável aquilo que lhe carece e não o que lhe pertence, por isso seria lógico afirmar que se dá o devido valor aquilo que perdemos, pois o que antes tínhamos como sendo nossa propriedade passa a não ser mais e desta forma carecemos de tal. Queremos o que nos falta, e o Amor sempre estará faltando, pois nós, seres físicos e metafísicos queremos a sua totalidade, o seu esplendor. Também no amor, além do belo e do feio há a sabedoria e a ignorância. Há os amantes sábios e os mesquinhos, que vêem apenas o lado sensível e não o que transcende o físico. São estes os amantes de Afrodite, pois amam somente o que lhes parece belo, o físico e assim acabam por não observar os valores, ou melhor, a aparência e a beleza que está escondida na alma e que revela-se no caráter.
Platão, através do que nomeou como Segunda Navegação consegue expor e investigar o Amor com o intelecto, buscando na conduta moral pregada por Sócrates o dinamismo, a real beleza e a bondade que deve sobressair neste amor. O amor sensível ama a forma, o corpo, o que pode ser atingido com os sentidos, já o amor supra-sensível é o amor imaterial, que transcende o físico e que busca no logos toda a essência que faz de um amor o verdadeiro e sublime Amor. Mas apesar desse dualismo o amor é um só Amor que tende a fundir-se de acordo com a realidade que lhe permeia, pois ao mesmo tempo em que explora o intelecto atinge os sentidos.

Débora Becker- Maio/2008