quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O BANQUETE- resenha e crítica

O banquete é um diálogo de Platão que enfatiza os discursos sobre o amor; o amor em sua totalidade e em sua individualidade, o amor do corpo, o amor da alma, o amor do povo, o amor do indivíduo. Enfim, é um diálogo que pertence a 4º tetralogia de Platão, que tem como introdução a natureza da alma, e sendo a força motriz, Eros, o deus do Amor. O discurso tem como personagens Pausânias, Apolodoro, Aristófanes, Aristodemo, Sócrates, Eriximaco, Fedro, entre outros e Agatão, o anfitrião do banquete. Sócrates é o personagem principal, o sábio do banquete, com quem Agatão e os demais querem desfrutar das sábias idéias que permeiam o seu vasto imaginário.
O banquete é nada mais que uma reunião de pensadores-amigos que após jantar e beber conduzem o seu intelecto às peculiaridades e dicotomias que envolvem o amor. Antes de falar nele, no amor, os participantes do banquete decidem não se embriagar, mas sim beber a seu bel-prazer, sabendo, cada um, qual a medida ideal para o seu corpo e, indubitavelmente para a sua alma. A bebida, assim como as impurezas da alma, impossibilita o homem a transcender em pensamento na verdade, e, sobretudo com sabedoria, sendo ela um terrível mal para os homens. Inicia-se a hora mais esperada do banquete, o momento em que a conversa ganha forma e espírito, é Fédro quem denomina o amor como o tema engendrador daquela noite e é a partir de seu raciocínio que se inicia uma problemática encaminhadora dos mistérios e vicissitudes do Amor. Cada membro do banquete tem uma diversificada e única noção sobre o que ele é, a quem ele pertence e como ele age. O amor é para alguns um deus, e sendo deus, a origem de todas as coisas e também é ele, o condutor da vida de todos aqueles homens que estão prontos a vivê-la em torno da virtude que é fruto desse amor. Ao conduzirem seus estudos sobre o amor numa perspectiva filosófica deparam-se com a dicotomia feio x belo, ou seja, à vergonha do que é feio e ao apreço do que é o belo,sendo o amor a essência do que é belo, e a beleza a essência do amor. E o que faz a beleza do amor é o modo de como esse amor é conduzido pelo amante, sendo que existe aquele que é belo e o que é feio, sendo que o primeiro é o amor nobre, o amor cultivado e que funde-se à alma, já o outro é o amor da carne, o culto ao corpo, às aparências, o amor repentino, instantâneo e popular, sem respeito a essência que habita profundamente tal carcaça. Tal dicotomia traduz o amor como bilateral, mas o verdadeiro e imanente ao tempo é o amor belo, sendo o belo não só comprometedor da beleza em si, mas da sua correlação moral e sensata. O feio seria não aquele deficiente da beleza, e sim aquele vulgar, dotado de interesses que destroem o caráter de um corpo essencialmente belo.
O Amor nasceu de um “amor”, filho de Recurso e Pobreza ele tem a carência e a insensatez da mãe e a esperteza e sabedoria do pai. O amor é dicotômico em função de seus genitores, ele tem a herança do feio e do belo, ele é pobre e ao mesmo tempo nobre, insatisfeito e também dotado de recursos, e por possuir um caráter dualístico deseja aquilo que lhe carece, querendo por isso possuir o que na verdade não está em seu poder. Se, portanto, o amor é carente do que é belo, e também do que é feio seria ele carente do bom e do ruim, pois o belo é bom e conseqüentemente o feio é ruim, porém é preciso encontrar um equilíbrio entre o belo e o feio, entre o bom e o mau. Sendo assim, caso o Amor não seja visto apenas na sua beleza não significa que tenha de ser feio e, portanto mau, ele pode ser aquilo que habita os dois extremos. Na realidade, o que ocorre é um constante casamento do Amor com outros amores e desamores, bondades e também maldades, e o amor e seus parceiros estão por toda a parte, em toda a natureza. Não é sempre que o amor encontra um bom companheiro para eternizar laços. E é nessas uniões infelizes com a violência, a ganância, a inveja, o poder que resultam em brigas repletas de fúria, ainda bem que muitas vezes ele encontra namorados bonzinhos como a amizade, a humildade, a prudência, a justiça, e assim acaba contorcendo a situação, trocando o caos pela harmonia.
O Amor é amor de algo e quando tem amor a algo não deseja, pois já possui, logo, o amor surge do nada. O desejo de amar surge do não ter o que amar? Parece que sim, embora os homens possam amar algo que ao mesmo tempo é nada, pois algo só é algo após possuir e o não possuir é o não ter, que implica em nada (seria o encantamento, o processo pré-amor, o apaixonar-se). É amável aquilo que lhe carece e não o que lhe pertence, por isso seria lógico afirmar que se dá o devido valor aquilo que perdemos, pois o que antes tínhamos como sendo nossa propriedade passa a não ser mais e desta forma carecemos de tal. Queremos o que nos falta, e o Amor sempre estará faltando, pois nós, seres físicos e metafísicos queremos a sua totalidade, o seu esplendor. Também no amor, além do belo e do feio há a sabedoria e a ignorância. Há os amantes sábios e os mesquinhos, que vêem apenas o lado sensível e não o que transcende o físico. São estes os amantes de Afrodite, pois amam somente o que lhes parece belo, o físico e assim acabam por não observar os valores, ou melhor, a aparência e a beleza que está escondida na alma e que revela-se no caráter.
Platão, através do que nomeou como Segunda Navegação consegue expor e investigar o Amor com o intelecto, buscando na conduta moral pregada por Sócrates o dinamismo, a real beleza e a bondade que deve sobressair neste amor. O amor sensível ama a forma, o corpo, o que pode ser atingido com os sentidos, já o amor supra-sensível é o amor imaterial, que transcende o físico e que busca no logos toda a essência que faz de um amor o verdadeiro e sublime Amor. Mas apesar desse dualismo o amor é um só Amor que tende a fundir-se de acordo com a realidade que lhe permeia, pois ao mesmo tempo em que explora o intelecto atinge os sentidos.

Débora Becker- Maio/2008

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